quarta-feira, 29 de junho de 2011

Murmúrios da tarde...Castro Alves

Castro Alves, obviamente, dispensa apresentações. Trata-se de um dos maiores poetas brasileiros, com certeza, um dos mais inspirados de toda literatura de língua portuguesa. A beleza lírica, a musicalidade e o ritmo empolgantes, a incrível naturalidade de fluência, a riqueza das imagens, a arrebatada grandiloquência fazem de Castro Alves um dos poetas mais adequados para a declamação. Sua obra é poesia pura, nascida do fundo da alma. Não tivesse morrido com apenas 24 anos, onde chegaria este gênio da poesia?

O poema abaixo é um dos meus favoritos de Castro Alves, impregnado de um profundo Romantismo. É, sem dúvida, um dos mais belos de nossa literatura. Na imagem que acompanha o poema, o quadro "A Floresta", de Camille Pissarro.




Murmúrios da Tarde



Ontem à tarde, quando o sol morria,

A natureza era um poema santo,

De cada moita a escuridão saia,

De cada gruta rebentava um canto,

Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura



Brilhava a estrela, como um fruto louro,

E qual a foice, que no chão fulgura,

Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,

Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!

Cantava o ninho-suspirava o lago...



E a verde pluma dos sutis palmares

Tinha das ondas o murmúrio vago...

Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa,

Vago concerto de saudade infinda!

"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,



"Aura-não fujas", diz a flor mais linda;

Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"

Dizia às nuvens o choroso orvalho,

"Rola que foges", diz o ninho antigo,

'Leva-me ainda para um novo galho...



Leva-me! leva-me em teu seio amigo."

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!



Inda um calor, antes que chegue o frio..."

E mais o musgo se conchega à penha

E mais à penha se conchega o rio...

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!



E tu no entanto no jardim vagavas,

Rosa de amor, celestial Maria...

Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,

Ai! como alegre a tua boca ria...

E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!



Eras um anjo, que se fez menina!

Tinhas das aves a celeste origem.

Tinhas da lua a palidez divina,

Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,



Que bela rosa! que fragrância meiga!

Dir-se-ia um riso no jardim aberto,

Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...

E eu, que escutava o conversar das flores,

Ouvi que a rosa murmurava ardente:



"Colhe-me, ó virgem, não terei mais dores,

Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...

"E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"

Também então eu murmurei cismando...

Minh'alma é rosa, que a geada esfria...



Dá-lhe em teus seios um asilo brando...

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."

terça-feira, 28 de junho de 2011

UM POETA CONSAGRADO.

Todos nós, que gostamos de poesia, conhecemos estes versos de Vinicius de Moraes:


"De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento."

(Soneto de Fidelidade)



E lindo, porém com uma outra face histórica, é o poema A Rosa de Hiroshima:

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Escrito sob o influxo dos horrores da Segunda Guerra Mundial e, em especial, sob o impacto moral das explosões atômicas, “A Rosa De Hiroxima” é um poema bonito e forte.

Agora, durante mais uma guerra-massacre sem rima nem razão, vale a pena reler, repetir, cantar e recitar esse poema onde seja possível...

Gostou? Comente...



Você encontrará mais em:
www.algumapoesia.com.br
Ou, no livro:
Vinicius de Moraes

In Antologia Poética
José Olympio, 20a. ed., Rio de Janeiro, 1981

 

UM POETA MATOGROSSENSE. UM POETA NOSSO.

Eu imagino que você deve pensar muito em: “por que será que não ouvimos falar em poetas daqui? De pertinho da gente?" Talvez por que você ainda não conhece MANOEL DE BARROS.





"Nasci para administrar o à-toa / o em vão / o inútil", avisa o poeta Manoel de Barros numa espécie de profissão de fé. Ele sabe que "o poema é antes de tudo um inutensílio". Por isso seu ofício é inventar palavras, invadir o arco-íris, surpreender formigas.








Nascido em Cuiabá-MT em 1916, o poeta estreou em 1937 com o volume Poemas Concebidos sem Pecado. De lá para cá, já publicou quase duas dezenas de títulos e, a partir dos anos 80, conquistou a consagração. Os poemas de Manoel de Barros são marcados por uma sistemática irreverência com a lógica e o bom-comportamento das palavras. Seu trabalho é composto por uma poesia que "rola no chão" com os pequenos absurdos do dia-a-dia. Uma poesia marcadamente do interior, do Pantanal, que vive na proximidade de gente, bicho e planta. Uma poesia escrita por quem aprendeu sozinho que "uma árvore bem gorjeada passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam".

Aprecie um de seus poemas:

SEIS OU TREZE COISAS QUE EU APRENDI SOZINHO

Com cem anos de escória uma lata aprende a rezar.

Com cem anos de escombros um sapo vira árvore e cresce por cima das pedras até dar leite.

Insetos levam mais de cem anos para uma folha sê-los.

Uma pedra de arroio leva mais de cem anos para ter murmúrios.

Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.

Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor as cores tortas.

Com menos de três meses mosquitos completam a sua eternidade.

Um ente enfermo de árvore, com menos de cem anos, perde o contorno das folhas.

Aranha com olho de estame no lodo se despedra.

Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.

Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe que os escorpiões de areia.

A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.

Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.

O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.

Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele vagando por escórias...

A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.

Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos, se embutem até o latejo.

Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.

Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.

Quando a rã de cor palha está para ter — ela espicha os olhinhos para Deus.

De cada vinte calangos, enlanguescidos por estrelas, quinze perdem o rumo das grotas.

Todas estas informações têm soberba desimportância científica — como andar de costas.


Gostou? Saiba mais sobre ele nos livros:

Manoel de Barros
"Desejar Ser"
In Livro Sobre Nada (1966-1998)
Ed. Record, 3a. ed., Rio de Janeiro, 1996
"VII", "Seis ou Treze Coisas... (2)"
In Gramática Expositiva do Chão
(Poesia Quase Toda)
Ed. Civ. Brasileira, Rio de Janeiro, 1990


E, não se esqueça de nos contar o que achou dele, comentando!

Jogo de Literatura


V


Você se lembra de personagens, acontecimentos e estilos de escrita dos livros que já leu ou ouviu falar?
A revista nova escola disponibiliza um jogo on line para você avaliar seus conhecimentos sobre 25 livros nacionais e estrangeiros relacionando os trechos apresentados às respectivas obras. São diversos livros de autores clássicos e contemporâneos.

Dê um clique no link abaixo e bom jogo!!

http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/jogo-literatura-582623.shtml

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um garoto chamado Rorbeto

Que o rapper Gabriel o Pensador manda bem nas letras de suas músicas nós já sabemos...Mas você sabia que além de talentoso com o rap, Gabriel também é autor de um livro que é um sucesso e ganhou até o mais celebrado prêmio da literatura nacional, o Jabuti. O nome do livro é "um garoto chamado Rorbeto", no livro são abordados temas como discriminação ao analfabeto, intolerância e tudo de uma forma muito leve num texto muito gostoso de ler. Olha só um trechinho do livro:

                                          Um garoto chamado Rorbeto
                                                Gabriel o Pensador

Era uma vez um menino que era muito atrapalhado
O nome dele era esquisito porque foi escrito errado
É que o pai se atrapalhava, sempre, sem parar.
E lhe deu um nome com uma letra fora do lugar

Quando o menino nasceu
O doutor viu que era homem
E falou para os pais dele: Já escolheram o nome?
Mas seu pai não tinha tido escola, era analfabeto,
Não sabia nem falar direito
E falou RORBETO

O Doutor    tava   com   pressa   e   anotou     assim    correndo
O seu   pai    ficou   olhando   como   se   estivesse    lendo
Mas   não   entendia   as   letras   porque   não   sabia    ler
O Doutor   mostrou   pro   pai  :
___O    nome   é   esse ?
___ Pode   ser.

A    mãe   tav a   tão   feliz    que   nem   prestou   atenção
Esperou     por    nove    meses    com    o     bebê    ao    coração  
E   ele    nasceu    com     saúde, trazendo    orgulho    e    amor
"Bem     vindo    seja    Rorbeto!Obrigada,    tchau,     Doutor!"

O   tempo    passou    feito    o    rio, correndo  ,    fazendo    Rorbeto    crescer.
E    um   dia    ele    quis    ensinar    o   seu    pai,    já    velhinho,    a    ler    e    a    escrever.
O    pai   que     nunca    teve    escola, gostou    da     ideia    e    pegou    uma   caneta

Roberto    lembrou-se ,    sorrindo,    do    dia    em    que    sua    mulher    deu     á    luz    um    bebê
E     sorrindo, falou    para    o    filho :
"Eu    errei!    O    seu    nome    seria    ROBERTO"

Mas    o     filho    falou:
"Não     errou,    não    Senhor! O  amor    faz    tudo    certo!"


Não       é       lindo !!!!!Com    certeza    é     um    livro   que    encanta      desde     os      leitores    mais    pequeninos    aos    mais     crescidinhos   como     nós.......

Boa   Leitura!!!!

Já conhece Florbela Espanca?

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.

Meus olhos andam cegos de te ver!

Não és sequer razão do meu viver

Pois que tu és já toda a minha vida”


FLORBELA ESPANCA



Que tal conhecer? A vida de Florbela Espanca é uma verdadeira expressão do sentimento feminino em sonetos clássicos. Seu pai, introdutor do cinematógrafo em Portugal, se casa e tem filhos com a criada, em função da doença da mãe; bela filha cresce com temperamento artístico e é tratada como doente dos nervos, embora seja uma das primeiras mulheres a ingressar na Universidade de Lisboa; se casa três vezes e comete dois abortos, é incompreendida no meio em que vive; certo dia o único irmão, piloto, joga seu avião contra o rio Tejo; tradutora e poeta de lirismo dramático, suicida-se com dois frascos de Veronal.


Uma história incrível e apaixonante. Leia, e venha dividir com gente sua leitura. Comente.

Você já ouviu falar sobre POESIA VISUAL? E POEMA CONCRETO?

Mas, vocês já devem saber que muitas poesias tem a combinação de rimas, e provocam o sentimento do belo. Não é? Vejam essas:                                                    
Poema visual: E. M. de Melo e Castro

Poema visual: Ronaldo Azeredo

Tecnicamente, poesia concreta é a denominação de uma prática poética, cristalizada na década de 50, que tem como características básicas: a abolição do verso; a apresentação "verbivocovisual", ou seja, a organização do texto segundo critérios que enfatizem os valores gráficos e fônicos relacionais das palavras; a eliminação ou rarefação dos laços da sintaxe lógico-discursiva em prol de uma conexão direta entre as palavras, orientada principalmente por associações paronomásticas.
As composições poéticas desses poemas que você viu acima, são exatamente assim, tem como tendência o verso livre, de comprimento, métrica, e ritmo variável. Assim são definidas as POESIAS VISUAIS E OS POEMAS CONCRETOS. Uma grande descaracterização das formas tradicionais do poema ocorreu no Brasil a partir do CONCRETISMO. Eis, abaixo um poema concreto de uma dos fundadores do movimento:


Gostou? Então saiba mais em:

http://wn.com/Haroldo_de_Campos__Um_poeta_contra_o_t%C3%A9dio_trilha_de_FCLG
http://concretismo3-ano.blogspot.com/2008/10/nasce-morre.html

E depois, divida com a gente tudo o que você aprendeu, dê dicas de um poema que você quer ver aqui. Ou, use sua criatividade e coloque seu poema croncreto ou visual AQUI...
Estamos esperando...